segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Perfeccionismo e Hamartologia

A doutrina do pecado (Hamartologia) é talvez o aspecto mais importante e mais desafiador para uma compreensão coerente da doutrina da perfeição humana no adventismo, pois a doutrina do pecado contém em si mesma as revelações mais impactantes e potencialmente complexas com que precisamos lidar ao tratarmos com essa intrigante questão. É exatamente o pecado que nos torna imperfeitos, e que nos faz precisar de um salvador que nos perdoe (Lc 7:48-49; Cl 2:13; Tg 5:15), que nos purifique (Pv 20:9; 1 Jo 1:9), que nos dê forças para vencermos os pecados (Pv 28:13; Rm 6:1-2; 1 Ts 5:24; 1 Pe 4:1), e que nos conduza para além do poder e da presença do pecado para sempre (1 Co 15:50-56), pois é absolutamente claro nas Escrituras que nós não podemos fazer nenhuma dessas coisas em nosso próprio benefício (Jo 15:5).
Entretanto, ainda permanece a necessidade de encararmos algumas das dimensões da natureza do pecado contidas na revelação para que sejamos capazes de vislumbrar respostas sobre a relação da hamartologia com a doutrina da perfeição humana e adiante com o conceito de perfeccionismo.
Podemos perseguir duas linhas distintas de evidências sobre a natureza e manifestação do pecado na vida humana que não se contradizem, antes se complementam, mas que tem o potencial de tornar esse assunto um pouco confuso para alguns estudantes da Bíblia e dos escritos de Ellen White, são elas: 1) A dimensão essencial; e 2) A dimensão relacional.

1. A dimensão essencial do conceito de pecado

A Bíblia introduz a história do pecado na humanidade em Gn 3, com a história da queda de nossos primeiros pais. Até então o casal no Éden era absolutamente perfeito dentro dos limites da natureza humana criada por Deus à sua imagem e semelhança (Gn 1:26-28, 31), mas deve-se notar que “a primeira consequência do pecado foi a alteração da natureza humana” (NISTO CREMOS, p. 112).
Essa alteração nos conduz à dimensão essencial da presença do “pecado” na própria natureza da humanidade, e não apenas em seus comportamentos ou relacionamentos. É a partir dessa perspectiva que a revelação compreende o ser humano como “concebido em pecado” (Sl 51:5), e envolvido em “transgressão” de forma ativa, ainda que misteriosa, desde sua gestação (Is 48:8), e/ou “logo” após sua concepção ou nascimento (Sl 58:3), sendo, dessa forma, que o homem é “inimigo de Deus por natureza” (Ef 2:3, itálicos supridos). É por causa dessas realidades que podemos afirmar que o ser humano não apenas comete pecado (dimensão relacional), mas é pecador (dimensão essencial), conforme lemos em Lucas 5:8; 13:2-3; 18:13; Romanos 5:8; Gálatas 2:17; e Tiago 4:8. A complexidade desse conceito demonstra ser ainda mais profunda quando vemos o pecado se alastrando na humanidade dentro de uma estrutura claramente hereditária, uma vez que os “muitos” seres humanos de Rm 5:19 (leia-se todos, exceto Cristo, cf. Rm 3:23; Hb 4:15) se tornaram pecadores não primariamente por causa de seus próprios pecados, mas pela desobediência de um só, Adão.

Tal realidade tem sido objeto de efervescente interesse e disputa hermenêutica ao longo dos séculos da era cristã, mas na atualidade as pressuposições e conclusões advindas de Rm 5:19 (no contexto imediato de Rm 5:12-21) parecem terem sido relegadas a um segundo plano na consciência cristã de forma geral, e também na consciência cristã adventista, resultando no fato de que “a decadência da doutrina do pecado hereditário [dimensão essencial] levou ao deslocamento e, em última análise, à redução do conceito de pecado a pecados atuais.” (PANNENBERG, 2009, v. 2, p. 340, itálicos supridos).

As maiores dificuldades com a compreensão e aceitação do pecado em termos essenciais na natureza humana surgem de noções simplistas sobre a justiça e a bondade amorosa e perdoadora de Deus. Seria o pecado de Adão, aparentemente tão insignificante e infantil para a mentalidade de alguns, motivo suficiente para justificar as terríveis consequências naturais e espirituais que se abateram sobre seus descendentes? Em um senso de justiça particular e, considerando-se apenas a lógica humana, a resposta de muitos é: não! Entretanto, tal conclusão surge como manifestação de dúvida sobre a confiabilidade das próprias afirmações contidas na Palavra de Deus, e isso, geralmente, da parte de um ser humano que deseja questionar e julgar o próprio Deus (cf. Rm 9:20). Aqueles, entretanto, que pela fé compreendem terem sido incluídos na oração de Cristo registrada em João 17:17, se submetem ao que a Bíblia diz e buscam lhe compreender em seus próprios termos.

A afirmação bíblica específica sobre a hereditariedade do pecado em Rm 5:19, dentro do contexto de Romanos 5:12-21, por sua vez, já gerou muitas tentativas de interpretação para se resolver “o problema,” como, por exemplo, a explicação católica romana, defendida no concílio de Trento, de que o pecado original é “próprio” a cada descendente de Adão individualmente (CATECISMO, p. 115), no sentido de que, de alguma forma, todos teriam pecado “em Adão.”

Entretanto, Rodríguez (2012) nos diz que
Argumentar que quando Adão pecou nós todos pecamos por que nós estávamos nele é introduzir na bíblia um mal entendimento sobre a natureza humana. Implícita na afirmação que estávamos em Adão está a ideia de que nós somos pré-existentes em relação ao nosso nascimento natural, e que, portanto, nós somos responsáveis pelo pecado de Adão. (...) Ao insistir que nós estávamos em Adão quando este pecou, estamos ensinando, não intencionalmente, que nós somos responsáveis por ações cometidas por nós mesmos fora de nossa presente forma física, mas de alguma forma, dentro do corpo de Adão. Aqueles que promovem essa visão não estão usando essa linguagem de forma metafórica, pois de acordo com eles nós pecamos de fato, nos tornamos pecadores, no pecado de Adão. Uma vez que somente as próprias pessoas são responsáveis por suas ações, portanto, nós tínhamos que existir em alguma forma quando Adão pecou para que sejamos responsabilizados pelo pecado dele. Mas tais ideias são estranhas a Romanos 5:12-21. Precisamos reconhecer, contudo, que o pecado de Adão teve impacto universal, e é exatamente isso que Paulo está argumentando. Nós todos somos pecadores, nós todos estamos separados de Deus por causa do pecado de Adão.

Paulo explica o que ele quer dizer ao afirmar que quando Adão pecou, o pecado e a morte entraram no mundo. Certamente o pecado de Adão não é o nosso pecado, mas ele tornou impossível para qualquer ser humano não pecar, pois a morte, como um poder universal, veio ao mundo como resultado do pecado de Adão, e isso inclui a morte espiritual e física. Estamos separados de Deus como uma raça cuja natureza não tem poder para resistir ao poder do pecado. Nossa condição pecaminosa foi seguida de atos pecaminosos por que nós estávamos espiritualmente mortos. (...) Nós somos pecadores não por que quando Adão pecou, nós que alegadamente estávamos nele, pecamos, mas por que viemos debaixo do poder da morte, separados de Deus, o que tornou o pecado inevitável para nós.

Dentro dessa discussão é importante relembrar que a morte fora designada inequivocamente como o quinhão da transgressão humana (Gn 2:16-17), e que ela haveria de envolver a humanidade em todas as suas dimensões, tanto físicas (morte natural), como espirituais (morte espiritual) conforme implicam claramente os textos de Romanos 6:23 e Efésios 2:1. Portanto, concluímos pela Palavra de Deus que através da transgressão dos nossos primeiros pais o pecado se tornou uma realidade que escravizou toda a humanidade (Rm 7:14-25).

Em toda a experiência humana com o pecado, entretanto, o Senhor não deixou de manifestar a disposição de ser misericordioso, apesar da culpa de Adão, e das culpas individuais de todos os seus filhos (adquiridas com a experiência própria de pecado da parte de cada ser humano, desde o ventre de suas mães conforme Sl 51:5; 58:3; e Is 48:8), o que moveu a Deus a nos salvar dos nossos pecados por causa do grande amor com que nos amou (Mt 1:21; Tt 3:5).

O entendimento bíblico da IASD corrobora inequivocamente a dimensão essencial do pecado na natureza humana, dentro de uma estrutura hereditária de propagação e abrangente em manifestação, o que podemos verificar nas seguintes afirmações: “A natureza humana pode ser descrita como corrupta, depravada e inteiramente pecaminosa.” (NISTO CREMOS, p. 115); “A história revela que os descendentes de Adão compartilham da pecaminosidade de sua natureza.” (NISTO CREMOS, p. 115); “A corrupção do coração humano afeta a pessoa em sua totalidade” (NISTO CREMOS, p. 116); “Já herdamos nossa pecaminosidade básica” (NISTO CREMOS, p. 116); “A universal pecaminosidade da raça humana constitui evidência de que, por natureza, tendemos ao mal, e não ao bem” (NISTO CREMOS, p. 116); “Não nos é possível herdar a vontade originalmente não pervertida que [Adão e Eva] perderam quando falharam na grande prova” (CAIRUS, 2001, p. 244); “O pecado não se restringe a atos individuais, mas é retratado como um estado de ser” (FOWLER, 2001, p. 277); “Uma natureza corrupta e pecadora produz atos pecaminosos.” (FOWLER, 2001, p. 277); “Os seres humanos não são pecadores porque cometem pecado; pecam porque são pecadores” (FOWLER, 2001, p. 278).

White compartilha de conceitos muito similares a estes, como podemos perceber nos seguintes textos: “Somos pecaminosos, e incapazes por nós próprios de praticar as palavras de Cristo.” (1986b, p. 47) “Em resultado da desobediência de Adão, todo ser humano é transgressor da lei, vendido sob o pecado.” (1967, p. 146); “Adão caiu sob o domínio de Satanás. Introduziu no mundo o pecado e, pelo pecado, a morte.” (1985b, p. 69); “Adão desobedeceu e transmitiu o pecado a sua posteridade.” (1980a, p. 316); “[um] único pecado trouxe ao mundo a morte e nossas desgraças todas.” (1997a, p. 150). “O homem não podia servir de expiação pelo homem. Sua condição pecaminosa e decaída faria dele uma oferta imperfeita.” (1992, p. 24); “Declarou-se-lhes [a Adão e Eva], porém, que sua natureza ficara depravada pelo pecado.” (1997b, p. 61); “Em nós mesmos somos pecadores.” (1985c, p. 394);

Em três sentenças maiores White afirma:
“Mas pela desobediência, suas faculdades [da humanidade] foram pervertidas, e o egoísmo tomou o lugar do amor. Sua natureza tornou-se tão enfraquecida pela transgressão que lhe era impossível, em sua própria força, resistir ao poder do mal.” (1994, p. 17);
“A lei de Deus é santa como Ele próprio é santo, perfeita como Ele é perfeito. Ela apresenta aos homens a justiça de Deus. Impossível é ao homem, de si mesmo, guardar essa lei; pois a natureza do homem é depravada, deformada, e inteiramente diversa do caráter de Deus.” (1988a, p. 54);

“Era possível a Adão, antes da queda, formar um caráter justo pela obediência à lei de Deus. Mas deixou de o fazer e, devido ao seu pecado, nossa natureza se acha decaída, e não podemos tornar-nos justos. Visto como somos pecaminosos, profanos, não podemos obedecer perfeitamente a uma lei santa.” (1994, p. 62);

A insubmissão a qualquer uma dessas verdades afetará radicalmente a compreensão da doutrina da perfeição cristã. Isso acontece porque tal doutrina só pode ser avaliada corretamente sob o pano de fundo da doutrina do pecado, com todas as implicações radicais que advém de sua manifestação dominante e escravizadora sobre a condição humana de forma universal, após a queda.

Mas a insubmissão diante das características e implicações da dimensão essencial do pecado na humanidade constrói um dos alicerces da heresia perfeccionista, que só consegue sobreviver negando direta ou indiretamente as verdades bíblicas, e dos escritos de Ellen White, sobre a facticidade e força da dimensão essencial do pecado na própria natureza humana. Por isso fazemos bem em atentar para as conclusões de Warfield (1958, p. xi) de que “O perfeccionismo defende uma noção inadequada de pecado. O perfeccionismo é impossível na presença de uma noção profunda de pecado.”

Desta forma podemos perceber que o perfeccionismo está destinado a forçosamente abrandar o conceito de pecado, e ele faz exatamente isso ao tornar-se seletivo para com as fontes das quais retira sua interpretação (Bíblia e escritos de Ellen White), ora mal interpretando a evidência ou simplesmente deixando de fora as ênfases que em última instância negam seus fundamentos, pressuposições e suas conclusões.

2) A dimensão relacional do conceito de pecado

A ênfase mais destacada no conceito de pecado, entretanto, se refere à presença de alguma espécie de mal na dimensão relacional do ser humano para com Deus, e para com seu próximo (Mt 12:30-31). É dentro dessa dimensão que estão contidas as noções mais comuns de pecado como: “transgressão da lei” de Deus (1 Jo 3:4); “tudo que não provém da fé” (Rm 14:23); Tudo que destrói o ser humano/a igreja em qualquer sentido ou dimensão (1 Co 3:16-17); não fazer o que alguém sabe que “deve fazer” (Tg 4:17); mau uso da liberdade humana em direção à desobediência (Is 65:12; 66:3).

É importante notar também que a noção de pecado aqui inclui, não apenas comportamentos de transgressão, mas invade o próprio mundo dos pensamentos e das intenções do “coração” humano, antes de se manifestar exteriormente (Mt 5:28; 15:19; Mc 7:21). Faz-se necessário acentuar, também, que a reminiscência factual de certa dimensão do pecado na vida dos próprios cristãos (Rm 5:8; 1 Jo 1:8, 10; Tg 3:2; cf. Ec 7:20), não justificam ou fazem do pecado, no sentido agora discutido, algo mais forte do que o poder da graça de Deus em livrar o homem de pecar já em sua experiência presente (cf. Rm 5:20; 6:1-2, 11, 14, 18, 22; 1 Jo 3:6-9).

A complexidade do conceito de pecado, entretanto, não deixa de estar presente quando analisamos detidamente algumas implicações da dimensão relacional de sua natureza e manifestação na vida humana.

Uma vez que o pecado pode ser descrito como “transgressão da lei” de Deus (1 jo 3:4), se torna importante notar que, por outro lado, o “cumprimento da lei” é o amor (Rm 13:10). O amor verdadeiro é descrito em 1 Cor 13 como uma disposição de vida, em termos de seus sentimentos, emoções, razões, motivações, atitudes e relacionamentos que envolvem a manifestação de características inegociáveis como: paciência, bondade; e ausência de: ciúmes, soberba, maus comportamentos, egoísmo, exasperação e alegria por injustiças. É dito também que o amor se regozija com a verdade, não se ufana, além de tudo sofrer, crer, esperar e suportar, sendo que o verdadeiro amor jamais acaba. É dentro desse contexto que podemos, portanto, avaliar corretamente o que é o pecado (a transgressão da lei de Deus, cujo cumprimento é o amor), e o que se deve esperar de quem se torna vitorioso contra ele pela graça de Deus em Jesus Cristo.

É dentro dessa estrutura de pensamento que somos capazes de melhor apreciar e entender as exortações cristãs em direção ao amor como marca identificadora da comunidade que recebeu a salvação que Jesus Cristo veio trazer, manifesta na forma de vitória sobre o pecado, desde já, em certo sentido (Rm 6:22). O próprio Cristo disse: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13:35) e Paulo, por sua vez, afirma que “quem ama o próximo tem cumprido a lei.”(Rm 13:8). Essa é uma parte essencial da mensagem cristã (cf. 1 Co 16:14; Ef 3:17; Cl 1:4, 8; 1 Ts 1:3; 1 Pe 1:22; 1 Jo 2:10; 3:14; 4:7, 20-21).

Nessa direção devemos ainda estabelecer dois pontos importantes. O primeiro ponto é que ninguém deve pregar a “perfeição cristã” desassociada do fato de que qualquer falha em amar a Deus ou em amar a qualquer ser humano de forma perfeita e incondicional, constitui pecado: transgressão da lei de Deus. Mesmo que tal falha em amar se dê no mínimo grau/sentido (seja em intenções, pensamentos, palavras ou atitudes), e mesmo que tal transgressão ocorra pelo menor espaço de tempo possível ou sob qualquer circunstância da vida humana nesta terra. O segundo ponto é que mesmo a facticidade do amor a Deus e às pessoas não coloca o ser humano que ama acima da experiência do pecado em todo e qualquer sentido [especialmente na dimensão essencial], pois ele continua a ser exortado a crescer diante do padrão do próprio amor que ele já manifesta pela graça de Deus (Fp 1:9; 1 Ts 3:12; 2 Ts 1:3; 2 Pe 1:3-8), o que implica que, apesar de amar de forma reconhecidamente real, ele ainda é imperfeito diante das dimensões mais radicais do amor perfeito e incondicional, e por causa disso, continua sendo reputado como pecador, mesmo “cumprindo a lei” (Rm 13:8; cf. Ap 12:17; 14:12). Essa é a realidade paradoxal que confunde muitos cristãos, mas com base na Palavra de Deus é possível afirmar que existem pessoas que são fiéis à lei de Deus, mas que nem por isso deixaram de ser pecadoras!
A partir das ênfases relacionais do conceito de pecado surge a compreensão adventista de que em certo sentido: Pecado é também “um ato individual, uma falta de conformidade com a lei de Deus” (FOWLER, 2001, p. 282); “O pecado é um mal moral - o resultado de um agente moral livre que decide violar a vontade revelada de Deus” (NISTO CREMOS, p. 113). “Qualquer desvio da conhecida vontade de Deus, quer seja por negligência em fazer aquilo que Ele ordena seja feito, que seja por fazer aquilo que Ele proíbe especificamente” é pecado (HORN, 1979, verbete: Pecado).


Fowler ainda nos relembra que:

“O pecado não é apenas um ato e um princípio, mas é também um poder escravizador. (...) [e] os atos pecaminosos são apenas expressões externas e visíveis de uma doença que acometeu nossas emoções, pensamentos, vontade, e poder para agir” (2011, p. 281). 
“O pecado é um caminho mau que o ser humano escolhe por livre e espontânea vontade. Não se trata de uma fraqueza pela qual os seres humanos não podem ser responsabilizados, pois o ser humano na atitude ou no ato de pecar, escolhe deliberadamente um caminho de rebelião contra Deus, de transgressão de sua lei, e deixa de ouvir a Palavra de Deus. Pecado é tentar ultrapassar os limites estabelecidos por Deus” (2011, p. 269-270).

White também compreende a natureza do pecado respeitando todas essas dimensões quando afirma: “Nenhum homem é forçado a transgredir. Seu próprio consentimento deve ser inicialmente vencido.” (2004, p. 177); “Obediência a Deus é liberdade do cativeiro do pecado, livramento da paixão e impulso humanos.” (1967, p. 259); “Jesus morreu para salvar o Seu povo dos pecados deles, e redenção em Cristo significa cessar a transgressão da lei de Deus e estar livre de todo pecado” (1985a, p. 95); “O pecado é a desobediência à expressa vontade de Deus, uma negação virtual de Deus, uma recusa às leis de Seu governo.” (NICHOL, 1978, v. 1, p. 1083); “O amor a Deus e ao próximo é a própria essência de nossa religião” (1985c, p. 337). “O inimigo sabe muito bem que se não tivermos amor uns para com os outros, ele poderá alcançar seu objetivo.” (1980a, p. 165).
Em outras três citações, em vista da dimensão relacional do conceito de pecado, White expõe que:

“Ninguém deve se enganar com a crença de que pode tornar-se santo enquanto voluntariamente transgride um dos mandamentos de Deus. O cometer o pecado conhecido faz silenciar a voz testemunhadora do Espírito e separa a alma de Deus. Pecado é a transgressão da lei.” (2001a, p. 472); 

“Nossa única definição de pecado é a que é dada na Palavra de Deus; é: ‘transgressão da lei’; o pecado é a operação de um princípio em conflito com a grande lei do amor, que é o fundamento do governo divino.” (2001a, p. 493);

“A tentação mais forte não pode desculpar o pecado. Por maior que seja a pressão exercida sobre a alma, a transgressão é o nosso próprio ato. Não está no poder da Terra nem do inferno compelir alguém a fazer o mal. Satanás ataca-nos em nossos pontos fracos, mas não é o caso de sermos vencidos.” (1997b, p. 421);

A dimensão relacional do conceito de pecado causa menos problemas filosóficos e teológicos do que alguns aspectos da dimensão essencial (ver: PANNENGERG, 2009, v. 2, p. 335-396; BULTMANN, 2008, p. 310-315), mas ela também coloca diante de nós uma realidade ampla, muitas vezes paradoxal e complexa com a qual precisamos lidar com sabedoria a fim de entendermos o que se espera de nós diante dos fatos. Ao nos determos nesse assunto vamos descobrir que Deus exige de nós inicialmente somente sinceridade para com a própria realidade do pecado pessoal que cada um carrega em si como resultado de sua desobediência à Palavra do Senhor (Jr 3:13). Adiante, aquele que assim o faz, com arrependimento e com uma atitude de abandono de seu pecado em tudo que lhe for possível, alcançará perdão e purificação misericordiosa de todo pecado (Pv 28:13; Mt 12:31; 1 Jo 1:9), entretanto, ainda soa o alarme: mesmo o cristão mais fiel e vitorioso não pode declarar estar livre de pecado em todo e qualquer sentido do termo sob a pena de ser desmascarado como mentiroso e fazer a Deus também mentiroso (1 Jo 1:8, 10).

As dimensões do conceito de pecado expostos aqui, nem de longe esgotam as questões da hamartiologia, mas já se demonstram razões claras e suficientes para a conclusão de que não podemos tratar o conceito de pecado como se referindo somente aos desvios puramente voluntários e comportamentais dos seres humanos (cf. Rm 7:20). É fato que todos os homens estão envolvidos em uma trama complexa de relações espirituais com as forças do bem e com as forças do mal desde sua concepção, gestação e nascimento, e que isso conduz a discussão sobre o conceito de pecado ao próprio âmago da natureza humana. Todos os homens carregam em si tendências pecaminosas e uma natureza corrompida, a priori, fato que não justifica (no sentido de tornar justo) nenhum pecado, mas explica a existência de todos os pecados que nos geram culpa, sofrimento e morte. Deus, todavia, respondeu ao pecado (em todo e qualquer sentido) com uma redenção salvífica suficiente para nos livrar de todo o pecado por toda a eternidade (Rm 3:23-24; Hb 9:12).



Mestrando em teologia Pr. Ezequiel Gomes - IASD

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